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  Cortejo Negro + Valsa com Bashir
"Sábado, 23 de maio. Sala Norberto Lubisco. Casa de Cultura Mário Quintana. Uma cidade misteriosa se apresenta na tela. Prédios cinzentos sob um fundo noturno de cores muito especiais. Céu coberto de nuvens de um laranja radioativo. E é noite. Uma cara de cão surge por baixo do quadro e nos tira o ar, pela primeira vez. Cachorro raivoso, olhos amarelos, pêlo negro. Ele inicia sua corrida pela cidade, ao longo dela se apresentam outros cães ameaçadores que derrubam objetos, apavoram transeuntes, rasgam as ruas da urbe moderna até que a matilha cerca um prédio. Numa das janelas se acende a luz e aparece um cara. Cansado. Este é o início de Valsa Com Bashir de Ari Folman. Um filme de impacto estarrecedor. Um documentário. Um filme de animação. Como é que estes dois gêneros casam? Não só casam como parece que esta seria a única de maneira de fazer este filme. Tão original na proposta como ousado na exposição. O trabalho de cores, a movimentação diferente, os cenários fantásticos e, ao mesmo tempo, tão reais que parecem quadros hiper-realistas, o desenho de luz que exerce função narrativa e dramática como nos filmes mais geniais da história do cinema, se unem aos depoimentos narrados pelas figuras desenhadas para criar uma experiência única. Forma e conteúdo se fundem numa viagem pelo inconsciente, uma missão detetivesca para recuperar a memória de um evento de mais de 20 anos atrás bloqueada pelo cérebro. Pelas defesas do organismo. E que agora deve ser exorcizada. Saí do cinema tonto. Senti que não conseguiria dirigir naquele momento. Minha companheira estava igualmente atordoada, física e emocionalmente. Procuramos um lugar para sentar, beber e tentar digerir. Valsa com Bashir, cujo nome é tirado de uma das duas cenas mais surrealistas do filme é uma obra única, um retalho de histórias doloridas e reflexões espantosamente corajosas sobre como o algoz pode tornar-se vítima de sua própria força. Como a guerra, como experiência individual, nada mais é do que a coleção de absurdos e aberrações. Despojada de heroísmos. Como brinde, antes de começar o longa, um curta metragem. Cortejo Negro dos “Irmãos Muller”. Direção do Diego e produção do Pablo. Um filme de direção segura e poesia macabra que também despoja de heroísmos a cultura gauchesca, ao mesmo tempo que a utiliza como ferramenta narrativa. Em Cortejo Negro as cores são Preto e Branco, os vivos são os covardes, a morte é um acidente de percurso. "

15/07/2009 | por Jaime Lerner
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