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BOLETIM PROMETHEUS - NOVA FASE
Prometheus conta a parceria da Fundação
Ford e o apoio da Associação Mundial de Rádios
Comunitárias (AMARC), da Rede de Informações para
o Terceiro Setor (RITS) e da Editora Glasberg ACR S.A.
Este número é dedicado a todas as mulheres, incansáveis
batalhadoras por uma sociedade onde os diferentes tenham, todos, os
mesmos direitos. À vocês nosso muito obrigado!
1) Os motivos da crise
2) Repórter da Folha revela tamanho do rombo
3) A situação particular da Globo
4) O que dizem os credores
5) Globo tenta se aliar a formadores de opinião
6) Globo promove almoço com cineastas
7) Haverá mesmo uma opção nacional?
8) O que as empresas de comunicação não querem
(as contrapartidas para os empréstimos)
9) CCS revela posição da mídia nacional
10) ABERT racha na negociação com o governo
11) A posição do governo Lula
12) Expediente
1) Os motivos da crise
Segundo a legislação brasileira em vigor até 2002,
os veículos de comunicação (TVs abertas, emissoras
de rádio e jornais) não poderiam pertencer a empresas
de capital aberto, mas apenas à pessoas físicas e, no
caso de rádios e TVs, exclusivamente aos donos das outorgas de
concessão. Essa regra fez com que as empresas tivessem administrações
familiares que, em muitos casos, significaram modos de gestão
arcaicos, desperdícios de recursos materiais e humanos, nomeações
sem mérito, etc.
Desde a ditadura militar, foi implementado no Brasil um modelo de rede
verticalizada (primeiro de TV, depois de rádio), que fazia com
que quase todo o conteúdo fosse produzido no eixo Rio-São
Paulo. As demais outorgas eram distribuídas para as oligarquias
políticas locais, que se associavam às redes nacionais
e cujo único interesse era a manutenção de seu
poder político.
A administração das rádios e TVs nunca foi uma
prioridade desses grupos.
Acreditando na equivalência perene entre o dólar e o real,
muitas empresas de comunicação tomaram empréstimos
externos, na moeda norte-americana, e agora vêem suas dívidas
triplicarem. Segundo um estudo que os grupos de mídia entregaram
ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES),
80% do total das dívidas está indexada em dólares
e 83,5% é de curto prazo.
Com o discurso da "convergência tecnológica",
os grandes grupos de mídia passaram a fazer investimentos em
vários outros campos da comunicação. A Folha de
São Paulo criou o UOL, em parceria com a Abril e agora com a
Portugal Telecom . O Estado de São Paulo investiu na BCP, de
telefonia celular, assim como a RBS se associou à Telefônica
de Espanha.
A Abril investiu em provedor de acesso, portais temáticos, canais
de televisão paga, etc. Mas, foi a Globo que mais diversificou
seu cardápio de empreendimentos, indo da eletrônica (NEC)
à transmissão de dados ( Vicom ), passando por pager ,
TV a cabo e Internet. Muitos destes negócios não se tornaram
lucrativos e tiveram que ser vendidos por valores que não recuperaram
nem mesmo o que foi investido.
Mas, até as empresas que não contraíram dívidas
significativas não têm receita para fazer frente aos desafios
dos próximos anos, especialmente à chegada do rádio
e da TV digitais (o que vai obrigar a altíssimos investimentos
nos estúdios e na área de transmissão).
Mesmo em anos onde apresenta algum crescimento(como 2003), o mercado
publicitário brasileiro não tem demonstrado, desde a década
de 90, o vigor que apresentava em outros momentos. O que significa,
proporcionalmente, menos recursos para as empresas de comunicação.
2) Repórter da Folha revela tamanho do rombo
A repórter da Folha de São Paulo, Elvira Lobato, especializada
na cobertura sobre as comunicações, revela, em reportagem
para a Folha de São Paulo, o tamanho da crise que se instalou
na mídia brasileira. Segundo Lobato, as empresas de comunicação,
somadas, devem cerca de R$ 10 bilhões, dos quais 60% são
dívidas da Globo. O montante investido em publicidade caiu de
R$ 9,8 bilhões, em 2000, para R$ 9,6 bilhões em 2002 (em
valores sem correção). No mesmo período a circulação
de revistas recuou de 17,1 para 16,2 milhões de exemplares e
a de jornais caiu ainda mais, de 7,9 para 7 milhões.
Em 2002 as empresas de comunicação acumularam R$ 7 bilhões
em prejuízos, sendo R$ 5 bilhões apenas pela GloboPar.
Novamente em comparação com 2000, a receita liquida foi
20% menor (descontada a inflação).
Mas, mais uma vez, quem pagou a fatia principal desta crise foram os
trabalhadores. Segundo dados do Ministério do Trabalho, entre
2000 e 2002, as empresas de comunicação demitiram 17 mil
pessoas. A reportagem contém, ainda, depoimentos dos principais
empresários da mídia brasileira.
A equipe do INDECS/Prometheus tem cópia eletrônica da reportagem
para os interessados.
3) A situação particular da Globo
O ano de 2002 vai entrar para a história do maior grupo brasileiro
de mídia. Depois de muitos anos fazendo lobby contra a entrada
do capital estrangeiro nos meios de comunicação, a direção
da Globo passou a defender a emenda constitucional que permitiu que
30% das ações de TVs abertas, rádios e jornais
fossem vendidas para grupos estrangeiros e, ainda, que estes veículos
pudessem se transformar em sociedades anônimas.
Era o reconhecimento da crise financeira em que a Globo se envolveu
e, também, a busca por uma saída: associar-se ao capital
estrangeiro, desde que este não tomasse o controle das mãos
da família Marinho. Ao mesmo tempo circulavam no mercado boatos
de que outros grupos de mídia já estavam se preparando
para fazer os chamados "contratos de gaveta", onde o controle
das empresas seria vendido de fato, mas não de direito.
Mas, os recursos estrangeiros não vieram como se esperava. Até
o momento não se sabe de nenhuma negociação em
trânsito para a venda de 30% de uma empresa de mídia ao
capital estrangeiro. A própria Globo ainda não esboçou
qualquer movimento para reunir suas rádios, TVs abertas e jornais
na holding GloboPar (sociedade anônima que reúne os demais
investimentos da Globo - http://globopar.globo.com ), permanecendo sob
a gestão exclusiva da família Marinho.
As maiores dívidas dos Marinho estão na GloboPar , especialmente
no setor de TV a cabo. Especula-se que o montante esteja em torno de
US$ 1,9 bilhão (US$ 1 , 345 bilhão segundo o balanço
do primeiro semestre de 2003, apenas da GloboPar ). Mesmo lucrativa
a TV Globo também é afetada pela crise já que a
Vênus Prateada é fiadora de parte destes empréstimos.
Desde o dia 28 de outubro de 2002 a Globo entrou em processo de default,
ou seja, não paga suas dívidas e tenta renegociar novos
prazos, condições e garantias.
Mas, até o momento não houve nenhum acordo com seus credores,
que começam a aumentar a pressão contra a família
Marinho.
No dia 11 de dezembro de 2003, três fundos de investimentos ligados
ao mesmo grupo gestor ( Huff ) pediram, nos Estados Unidos, a falência
da GloboPar , baseada no capítulo 11 da Lei de Falências
e no fato da GloboPar ter negociado papéis de sua dívida
naquele país. O Huff, que integra o Comitê de Credores
da GloboPar , é um dos chamados "fundos abutres", que
vivem da compra e negociação dos papéis de empresas
altamente endividadas. O pedido de falência foi negado pela justiça
norte-americana.
A negociação com os credores se arrasta por mais de um
ano e até o momento não existe nem sinal de um acordo.
Justamente por isso, começa a se alastrar a impressão
de que as empresas da família Marinho não teriam como
arcar sozinhas com o montante das dívidas que contraíram.
Por isso, teriam que recorrer a empréstimos do BNDES.
Para entender: empresas de telecomunicações, de softwares,
produtoras, distribuidoras e exibidoras de cinema, provedores de acesso
a Internet, gravadoras fonográficas, editoras, TVs por assinatura
via satélite e programadoras de conteúdo para TV paga
não tem qualquer restrição quanto ao capital estrangeiro.
Empresas de TV a cabo só podem ter 49% de capital estrangeiro,
mas proposta do senador Ney Suassuna(PMDB-PB) visa alterar este limite
para 100%. TVs abertas, rádios e jornais só podem vender
30% de suas ações para grupos internacionais. Mas, nada
impede que um único grupo de mídia internacional compre
30%, por exemplo, da Globo, do SBT e da Record.
4) O que dizem os credores
O processo sobre o pedido de falência da GloboPar, solicitada
pelo grupo de investimentos Huff , revelou dois documentos enviados
pelos credores à família Marinho, que demonstram o nível
de insatisfação com a forma como a Globo tem conduzido
as negociações. Os fatos foram revelados, no Brasil, pelo
boletim PayTV News (www.paytv.com.br
).
Segundo os documentos, a Globo teria enviado aos credores, em dezembro
de 2003, uma proposta de renegociação das dívidas,
redigida em apenas uma página de papel, e que foi considerada
insatisfatória.
Os credores pedem que as emissoras de TV aberta, de rádio e os
jornais sejam reunidos à holding GloboPar (" newly combined
TV Globo entity "), que estes credores possam ter participação
na nova empresa e que sejam feitos aportes de capitais por parte dos
novos e antigos sócios. Os documentos também reclamam
que não há maiores informações sobre os
planos da Globo para os próximos anos e que também não
haveria maior detalhamento sobre o que a Globo pretende fazer com a
sua participação na NET e na Sky .
Por fim, os credores pedem que sejam adotadas práticas de governança
corporativa e que sejam superados os aspectos familiares da gestão
da Globo.
5) Globo tenta se aliar a formadores de opinião
Em busca de apoio para seu pedido de empréstimos ao governo
federal, a Globo iniciou uma ofensiva para reverter sua imagem. Estudos
encomendados pela TV Globo revelam que, mesmo entre aqueles que assistem
seus programas, boa parte da população não nutre
uma imagem positiva sobre as empresas da família Marinho.
Assim, foram várias iniciativas nos últimos tempos.
O diretor Guel Arraes e o antropólogo Hermano Viana coordenam
o projeto "Brasil Total" que visa fazer parcerias entre a
Globo e suas afiliadas e produzir conteúdo a ser veiculado em
rede nacional. O controle de (e a própria definição
do que seria a) qualidade fica a cargo da matriz. Este projeto visa
dar uma resposta às críticas de que a Globo produz todo
o seu conteúdo no eixo Rio-São Paulo e nega a cultura
do resto do país.
No principal jornal da rede, Jornal Nacional, foram veiculadas várias
reportagens ao longo de uma semana mostrando como a emissora representa
parte do que há de melhor na cultura nacional. Nas matérias,
foram usadas diversas figuras públicas de atores e atrizes assalariados
da emissora que emprestaram seu prestígio em depoimentos gravados.
O mesmo ocorre agora com a veiculação de inserções
publicitárias que envolvem, inclusive, o apoio do presidente
da Câmara dos Deputados (João Paulo Cunha) e do vice-presidente
do Senado (Paulo Paim), ambos correligionários do presidente
da República.
A Globo também co-patrocinou o evento "Conteúdo Brasil
- Seminário de Valorização da Produção
Cultural Brasileira", na Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo (PUC-SP). Na audiência estavam diversos contratados
da emissora (entre outros Antônio Fagundes, Marcos Nanini, Marieta
Severo, Nelson Motta, William Bonner e Renato Machado) para ouvir o
escritor Ariano Suassuna, na palestra inaugural, falar sobre a importância
da cultura popular.
6) Globo promove almoço com cineastas
Um almoço promovido pela Rede Globo está esquentando
o debate entre os trabalhadores na indústria cinematográfica
brasileira.
A Globo encarregou o cineasta Roberto Farias (seu sócio no Canal
Brasil, membro do Conselho Superior de Cinema e pai do diretor Maurício
Farias, de "A Grande Família") de organizar uma lista
de convidados para um almoço no Projac, seguido de algumas reuniões,
nos dias 5 e 6 de fevereiro de 2004. Quem não morasse na cidade
do Rio de Janeiro teria garantido passagem e hospedagem. Foram, ao todo,
45 diretores e produtores de cinema. Entre eles muitos diretores de
entidades de classe. Mas, o convite deixou claro que estavam sendo convidados
apenas como pessoas físicas e que não falariam em nome
de suas instituições.
Todos puderam, antes do almoço, fazer uma visita guiada pelo
Projac (os estúdios da Rede Globo).
Pela Globo estiveram presentes Marluce Dias (CEO da emissora), Luiz
Erlanger (diretor da Central Globo de Comunicação), Carlos
Eduardo Rodrigues (da Globo Filmes) e Mônica Lucia (projetos de
regionalização).
O evento constou de uma apresentação dos participantes,
de longa exposição de Marluce Dias e de uma intervenção
de cada convidado.
Segundo Marluce, a Globo fez uma opção, "de amor
ao país e idealismo", pelo conteúdo nacional e a
emissora estaria disposta "a investir na auto-estima do povo brasileiro".
Diante de uma platéia de diretores e produtores de cinema, Marluce
Dias indicou o diretor da Globo Filmes, Carlos Eduardo Rodrigues, como
responsável por receber e encaminhar propostas de produções
cinematográficas na forma de parcerias, desde que aprovadas por
Daniel Filho, da Globo Filmes.
A CEO da Globo declarou-se contra qualquer tipo de obrigação
de exibição de conteúdo nacional nas TVs e disse
achar que isso seria uma indevida intromissão do Estado. Mas,
defendeu o incentivo fiscal para que as TVs possam produzir seu próprio
conteúdo, inclusive novelas (emissoras de rádio e TV já
são legalmente isentas do pagamento do Imposto sobre Circulação
de Mercadorias e Prestação de Serviços - ICMS).
Ao final, Marluce se disse aberta para novos encontros e mesmo conversas
individuais.
A equipe do INDECS/Prometheus tem cópia eletrônica de artigo
de Paulo Boccato, para a revista Tela Viva, que discute o sistema audiovisual
francês e suas formas de financiamento. Por conta da discrepância
na comparação com o modelo brasileiro pode ser um interessante
instrumento de debate.
7) Haverá mesmo uma opção nacional?
O argumento que a Globo tem usado é o da defesa do conteúdo
nacional e de que a emissora seria a grande representante deste conteúdo.
Por isso, o apoio à Globo (sem contrapartidas) seria uma ação
de defesa da cultura brasileira. A equipe do Prometheus resolveu problematizar
esta afirmação a fim de ajudar no debate.
A Rede Globo nasceu de uma relação ilegal com a empresa
Time-Life, a partir da benção do governo norte-americano.
Até então, Roberto Marinho era dono, apenas, de um jornal
e de uma rádio AM. Tudo isso está documentado no livro
"História Secreta da Rede Globo" (escrito pelo jornalista
Daniel Herz e publicado pela Editora Ortiz ).
Exceto pelas novelas e eventuais mini-séries, sua programação
dramatúrgica é preponderantemente norte-americana. Poucos
filmes nacionais são exibidos na TV brasileira, ao contrário
de diversos outros
países onde essa relação é definida em lei.
Na introdução da TV digital via satélite (banda
Ku) a Globo se associou à Rupert Murdoch , dono da Sky e da Fox.
Na NET, a Globo é sócia de Bill Gates, da Microsoft.
A maior porta de entrada da cinematografia norte-americana nas TVs brasileiras
é a associação da Globo nos canais Telecine (com
os estúdios
Universal, Paramount, MGM, Fox e Dreamworks ) e USA (com a General Eletric).
Para criar o portal Globo.com a empresa se associou à Itália
Telecom. A Itália Telecom também foi associada da Globo
no serviço de pager Teletrim. Bem como a Victori International
na empresa de transmissão de dados Vicom. A Telefônica
de Espanha é proprietária da Endemol e, portanto, sócia
da Globo nos programas No Limite, Big Brother e Fama. Na sua gráfica,
a Globo é associada à multinacional R. R. Donnelley. Quando
a Globo investiu no setor eletrônico, procurou parceria com os
japoneses da NEC.
8) O que as empresas de comunicação não querem
(as contrapartidas para o empréstimo)
Os veículos de comunicação estão solicitando
vultosos empréstimos do BNDES, com juros inferior aos praticados
pelo sistema financeiro e com prazos de pagamento dilatados. Estes recursos
têm origem nos cofres públicos.
As rádios e TVs exploram outorgas de concessões públicas
que pertencem, em última instância, a toda a população
brasileira.
Por estes dois motivos, diversos movimentos sociais começam a
questionar que tipo de contrapartidas estas emissoras estariam dispostas
a negociar publicamente em troca destes recursos. Resolvemos listar
aqui aqueles que consideramos mais importantes.
As emissoras de rádio e TV aberta no Brasil são reguladas
pela parte não revogada do Código Brasileiro de Telecomunicações,
de 1962 (que foi alterado pela ditadura militar em 1967), e por um cipoal
de leis, decretos, portarias e normas que muitas vezes se contradizem.
O governo Fernando Henrique Cardoso (FHC) prometeu a edição
de uma Lei Geral de Comunicação Social Eletrônica,
mas até o momento não existe uma proposta oficial. A maior
oposição a essa lei parte da Comissão de Ciência,
Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da
Câmara dos Deputados, controlada por parlamentares ligados às
grandes redes de comunicação. Não
estaria na hora de se fazer este debate publicamente?
Nesta nova legislação, por exemplo, seria necessário
rediscutir os critérios para liberação de concessões
de rádio e TV e suas respectivas renovações pelo
Congresso Nacional. E, ainda, estabelecer limites para a concentração
da propriedade nas mãos de um único grupo empresarial.
As TVs e rádios não estão dispostas a aceitar nenhum
tipo de obrigação de produzir mais conteúdo nacional
(a chamada cota de tela), seja em dramaturgia seja em jornalismo.
Quase 100% da produção audiovisual brasileira é
feita no eixo Rio-São Paulo, mas os grupos de mídia também
não aceitam nenhuma proposta de regionalização
da produção cultural. Projeto neste sentido, da deputada
Jandira Feghali ( PCdoB -RJ ), tramitou 11 anos na Câmara dos
Deputados e agora se encontra no Senado Federal onde é alvo de
críticas das emissoras de TV e rádio.
Nos Estados Unidos, duas regulamentações ( Financial Interest
and Syndication Rules e Prime Time Access Rule ) definem que as emissoras
são obrigadas a comprar percentuais do conteúdo, por elas
veiculado, em empresas independentes. No Brasil, a Globo, por exemplo,
produz ou co-produz 100% de seu conteúdo nacional.
A concentração na área de mídia não
é alvo das deliberações do Conselho Administrativo
de Defesa Econômica (CADE), ao contrário de diversos outros
setores da economia.
Nenhuma empresa de mídia cumpre as modernas normas de governança
corporativa.
A Secretaria de Comunicação (SECOM) da Presidência
da República centraliza as maiores contas de publicidade do país,
envolvendo estatais e ministérios. Atualmente não existem
critérios de utilização destes recursos e não
se sabe se há uma relação direta entre a audiência
obtida e os montantes investidos pelo governo em cada emissora. Tampouco
existem mecanismos para investimento em mídias alternativas e
comunitárias.
Não se sabe quantas empresas que agora solicitam recursos do
BNDES têm dívidas com a União (INSS, Cofins, PIS)
e trabalhistas e praticam elisão fiscal. Por exemplo, dois livros
(" Afundação Roberto Marinho I" e " Afundação
Roberto Marinho II _ uma biografia de corrupção",
de Romero da Costa Machado, ex-auditor fiscal da empresa, da Editora
Meus Caros Amigos) comentam supostas práticas de lavagem de dinheiro
e isenções indevidas, entre outros atos ilícitos.
Há anos tramita no Congresso Nacional a proposta de criação
obrigatória de serviços de ombudsman em cada emissora
de rádio e TV e nos jornais.
Concessões de rádio e TV são usadas livremente
para proselitismo religioso, ferindo o que dispõem a Constituição
Federal.
Quando criou a Agência Nacional de Cinema (ANCINE), o governo
de FHC acenava com a possibilidade de criar, no seu lugar, a Agência
Nacional do Audiovisual (ANCINAV), que passaria a regulamentar conjuntamente
o cinema e a TV, promovendo a união dos dois setores (uma antiga
reivindicação das entidades ligadas ao cinema nacional).
O governo Lula também promete transformar a ANCINE em ANCINAV,
mas a proposta sofre grande oposição das emissoras de
TV.
9) CCS revela posição da mídia nacional
O Conselho de Comunicação Social (CCS), órgão
consultivo auxiliar ao Senado Federal, realizou, no dia 2 de março
de 2003, reunião de sua Comissão de Regionalização
e Qualidade da Programação para discutir o Projeto de
Lei da deputada Jandira Feghali ( PCdoB-RJ ), que trata da regionalização
da produção dramatúrgica e jornalística
e da produção independente. O projeto foi aprovado na
Câmara dos Deputados e agora tramita no Senado.
Estiveram presentes vários representantes dos grandes grupos
nacionais de mídia.
O conselheiro Roberto Wagner Monteiro (diretor da Record) e o palestrante
convidado Evandro Guimarães (vice-presidente de Relações
Institucionais das Organizações Globo) defenderam que
o conceito de regionalização da produção
(ao obrigar as empresas a contratarem conteúdo e mão-de-obra
local) é inconstitucional. Segundo Guimarães, o projeto
não trará os benefícios esperados.
A íntegra dos debates está disponível, em arquivo
PDF, no endereço www.senado.gov.br/web/comissoes/ccs/documentos/ProjRegProg.pdf
10) ABERT racha na negociação com o governo
A Rede Record se retirou da Associação Brasileira de
Emissoras de Rádio e TV (ABERT) e renunciou à sua vice-presidência.
A RedeTV estuda tomar o mesmo caminho. O motivo de ambas é a
discordância com a proposta da ABERT de solicitar recursos do
BNDES para que as empresas de comunicação possam saldar
até 50% do total de suas dívidas. Ou seja, cerca de R$
5 bilhões.
Record, RedeTV e SBT (que abandonara a ABERT anteriormente) defendem
que os recursos do BNDES devam ser empregados, apenas, para custear
novos investimentos em produção de conteúdos e
novas tecnologias.
A posição da ABERT e das emissoras dissidentes já
foram levadas, pelos seus respectivos representantes, ao presidente
do BNDES, Carlos Lessa. Segundo informações não
oficiais, o estudo apresentado pela ABERT foi considerado insatisfatório
pelos técnicos do BNDES.
Mas, a disputa parece não ter terminado. A Record tem feito diversas
inserções, em seus programas, com comentários bastante
críticos sobre a Rede Globo, inclusive com trechos do vídeo
inglês "Além do Cidadão Kane " (que mostra
Roberto Marinho como uma figura pública com mais poder do que
o personagem Charles Foster Kane , do famoso filme de Orson Wells ).
Como a Bandeirantes também já não integrava os
quadros da ABERT, a associação é agora a porta-voz
quase exclusiva das Organizações Globo.
11) A posição do governo Lula
O governo Lula ainda não emitiu nenhum sinal claro a respeito
da posição que pretende tomar em relação
ao pedido de socorro das empresas de comunicação. Oficialmente
as duas propostas divergentes apresentadas pelos empresários
foram encaminhadas ao presidente do BNDES, Carlos Lessa, e os grupos
de mídia estão à espera de uma resposta.
Contudo, em Brasília todos sabem que os lobbies já estão
se movimentando velozmente e que diversos contatos não oficiais
foram feitos entre os empresários e o governo.
O presidente do BNDES já deu várias declarações
a favor de que o assunto seja discutido pelo Congresso Nacional, com
o que as emissoras não concordam. A ida do debate para o Congresso
Nacional envolverá parlamentares de diversas legendas, discussões
em comissões temáticas e a contribuição,
formal e informal, de entidades da sociedade civil organizada. O debate
demandará tempo e a necessidade de se ouvir todos os
interessados. Enfim, dará mais publicidade ao tema.
Nota da jornalista Fernanda Galvão, de IstoÉ Dinheiro,
informa que o governo só estaria disposto a destinar R$ 1 bilhão
para o equacionamento das dívidas, sendo que, no máximo,
R$ 250 milhões para cada grupo empresarial.
A proposta não chega nem perto de resolver o problema das Organizações
Globo e, por isso, o governo estudaria remeter o tema para a apreciação
da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Seria uma
forma de dividir com o Congresso Nacional o ônus da decisão.
Mas, também é certo que o governo não se encontra
em posição muito vantajosa para fazer esta negociação.
Este é um ano eleitoral e o tratamento que a mídia conceder
ao governo federal será decisivo para a disputa nas principais
capitais. De outro lado, diversos parlamentares são candidatos
ou tem interesses regionais em jogo e não vão querer tomar
uma posição que possa ser vista como antipática
pelos donos dos maiores meios de comunicação.
Some-se a isto a crise instaurada a partir da denúncia da revista
Época (das Organizações Globo) sobre as relações
entre o assessor da Casa Civil, Waldomiro Diniz, e a máfia do
jogo. A cobertura da mídia, a insistência no pedido de
instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) e a divulgação de outros fatos que envolvam novos
personagens pode ser crucial para aumentar a pressão contra o
governo.
E um governo frágil não é um bom negociador do
interesse público.
12) Expediente
Quanta verdade um homem é capaz de suportar?(Nietzsche )
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